A Psico-oncologia pela voz de Susana Almeida, Presidente da APPO.

Atualizado: 13 de set. de 2021

(…) Infelizmente, 20% dos doentes, ou seja, 2 em 10 poderá precisar também de intervenção psiquiátrica, porque o adoecer vai para além daquilo que é adaptativo ou sofrimento psicológico simples, podendo desaguar numa doença mental mais complexa como a depressão ou um stress pós-traumático, perturbação de ansiedades graves, associadas à doença ou ao medo da recaída, por exemplo. (…)



Paula Ribeiro (PR): Bem-vindos ao Trend Talks, um espaço onde se fala de tendências e o tema de hoje é Psico-Oncologia. O meu nome é Paula Ribeiro e connosco está Susana Almeida, presidente da Academia Portuguesa de Psico-Oncologia.

Bem-vinda, Susana!


Susana Almeida (SA): Olá Paula, obrigada pelo convite!


PR: Susana, começaria por perguntar o que é Psico-Oncologia?


SA: A Psico-Oncologia bem definida, se pensarmos na etnologia, é a área do entendimento da versão dos aspetos psicológicos e, em casos mais graves, psiquiátricos dos doentes oncológicos, ao longo do trajeto.


Portanto, a partir daqui que é o core, a parte mais importante da Psico-Oncologia (a parte clínica), também se diversifica noutras vertentes, sendo uma grande tradição, que já vem de décadas e que pretende, também, assistir os profissionais de saúde que trabalham na área.


Somos todas equipas multidisciplinares que cuidam do doente oncológico.


Pretende, também, facilitar a formação, por exemplo, nas competências de comunicação dos profissionais que trabalham diretamente com os doentes, junto das suas famílias e de outros profissionais e elementos de equipas multidisciplinares. É um aspeto até bastante completo. Habitualmente, é constituído por psicólogos e por psiquiatras da área da psiquiatria de ligação que tenham diferenciação em oncologia.


PR: Susana, embora já tenha falado um pouco na primeira resposta, se tivéssemos que resumir a importância da intervenção desta especialidade na abordagem do doente oncológico, como é que definiríamos essa importância?


SA: Essa parte é fundamental, porque nós estamos perante o doente quando o próprio identifica dificuldades no seu processo de adaptação à doença.


E o que que isso significa? É um processo que começa desde logo no início, a dúvida se poderá estar doente com uma doença oncológica. Muitos de nós, começamos a sentir-nos doentes antes de percebermos ou ter a certeza de que estamos doentes e isso implica um processo de rever o futuro, rever o presente, ponderar as estratégias que se tem para utilizar. Munirmos de ferramentas pessoais, tanto internas como externas para conseguirmos lidar com a situação.


Quando (a dúvida) é concretizada num diagnóstico e num plano de tratamento, as capacidades de adaptação podem estar mais ou menos íntegras, felizmente a maior parte das pessoas passam por isso sem precisar de ajuda psicológica e psiquiátrica, mas há algumas pessoas que vão de facto adoecer com sofrimento psicológico relevante, e é nesse momento que entra em ação a Psico-Oncologia.


Habitualmente, os meus colegas psicólogos clínicos que trabalham na área são pessoas extremamente capazes e com diferenciação específica, que fazem uma primeira linha de abordagem, facilitando esse processo de adaptação à doença, junto dos doentes e, às vezes, junto das suas famílias também.


Infelizmente, 20% dos doentes, ou seja, 2 em 10 poderá precisar também de intervenção psiquiátrica, porque o adoecer vai para além daquilo que é adaptativo ou sofrimento psicológico simples, podendo desaguar numa doença mental mais complexa como a depressão ou um stress pós-traumático, perturbação de ansiedades graves, associadas à doença ou ao medo da recaída, por exemplo.


E nesse momento a psiquiatria é chamada a intervir, sendo um trabalho em parceria tanto o quanto possível em articulação com os colegas da psicologia e com os colegas da oncologia médica, para que o plano de cuidados seja integrado.


E depois temos a parte B: os doentes já psiquiátricos ou já com patologia psicológica de sofrimento psíquico, que adoecem depois com doenças oncológicas. Portanto, temos doentes com esquizofrenia, doença bipolar e depressões que depois, infelizmente, também acabam por adoecer com doenças oncológicas.


Esses doentes vão precisar de uma atenção extra da nossa parte e de uma gestão mais delicada no seu processo de doença, porque há muitas coisas específicas quer farmacológicas, quer de intervenção, quer de articulação com os médicos que tratam do doente fora da doença oncológica.


Portanto, é uma área gira, interessante, desafiadora, mas muito estimulante, porque há uma gratificação instantânea naquilo que os doentes nos retribuem quando começam de facto a melhorar.


PR: E uma bordagem extremamente multidisciplinar…


SA: É, e não faz sentido ser de outra forma. Eu acho que uma das coisas que mais gosto naquilo que faço todos os dias, é a sensação que nós não estamos de facto fechados.


Nós estamos abertos, estamos recetivos, falamos com todas as classes de profissionais.


Junto dos enfermeiros, muitas vezes, começamos a perceber os problemas, eles estão na cabeceira, vêm no dia a dia, naquilo que é a dificuldade dos doentes neste processo.


Ouvimos também muitas vezes as famílias, percebemos como é que o doente vive com esse diagnóstico, como é que ele se integra e sobretudo tentamos melhorar o aspeto de qualidade de vida junto dos outros profissionais.


Portanto, há efeitos adversos desses tratamentos, há perdas decorrentes, sequelas do s tratamentos que podem ser minoradas, podem ser corrigidas com a nossa ajuda e, particularmente, em articulação com outras especialidades porque há muitas abordagens sintomáticas que podem minorar o sofrimento e reabilitar de facto o doente, por exemplo, o serviço social é um braço muito importante também nesta árvore que rodeia o doente.


PR: E como é que está a Psico-Oncologia em Portugal?


SA: Eu acho a Psico-Oncologia, em Portugal, está numa fase particularmente boa. Se calhar sou uma realista otimista, mas acho que sou!


Estamos a passar por uma pandemia, tivemos muitas coisas diferidas, tivemos suspensão de tratamentos, tivemos adiamentos de intervenções.


Mas eu acho que trabalhamos imenso para que isso fosse amortecido junto dos doentes. Temos a necessidade de falar uns com os outros, temos a necessidade de nos reorganizar, tentar encontrar soluções.


E a versatilidade tornou-se uma coisa extraordinária, quer dizer, há uns anos atrás era impensável fazermos tantas teleconsultas, intervenções em grupo, ou tantas pontes.


Por exemplo, este congresso luso-brasileiro é um exemplo, isto era impensável há dois anos, como é que conseguiríamos reunir tantas pessoas de tantos lugares, porque ultrapassa o Brasil e Portugal e o Brasil é quase um continente.


Como é que se consegue fazer, juntar sinergias, trocar opiniões, também para que a gente não se sinta tão sozinho na experiência.


E a experiência é brutal e quando é partilhada fica mais diluída, mais amortecida e a solidariedade ajuda imenso.


Acho que é uma oportunidade. É um desafio e uma oportunidade, a contemporaneidade da psicologia.


PR: Susana, pegando no que acabou de dizer, nós vamos ter um congresso luso-brasileiro de Psico-Oncologia, o primeiro congresso luso-brasileiro de Psico-Oncologia. Porquê este congresso, o que justifica este congresso?


SA: A vontade de ouvir o Brasil já vem de há muito tempo.

Nós temos, por exemplo, no I.P.O. do Porto a felicidade de ter recebido, ao longo dos últimos anos, formandos na área, psicólogos que estavam a fazer estágio profissional na área de Psico-Oncologia e que escolheram o I.P.O. do Porto para fazê-lo e cuja troca de ideias, impressões e de experiências foram muito boas para ambas as partes, e começamos a ter contacto dessa forma.


Depois, fomos lendo e ouvindo também fóruns internacionais como o Congresso Internacional de Psico-Oncologia, fomos ficando mais familiarizados com a pujança que o Brasil tem nesta área.


E têm uma realidade tão diferente, não é?

Nós temos um sistema nacional de saúde, o privado é uma coisa bastante mais reduzida. Nós somos bastante articulados nos cuidados, digamos públicos, mas o Brasil tem vertentes bastante diversificadas e têm também abordagens diferentes, em algumas das vertentes de intervenção.


E é através da disseminação dos congressos online que podemos ouvir algumas intervenções de profissionais, por exemplo, da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia, que nos cativaram e a possibilidade de fazer, finalmente, um congresso online ainda facilitou mais as pontes, porque de facto os custos de fazer uma coisa presencial pelo menos na Psico-Oncologia era bastante incomportável.


E assim, não só com o Brasil, mas também com convidados internacionais através do online, com toda a saturação que as pessoas possam ter do online, com todo o cansaço que possam ter pela falta de contacto presencial, apesar de tudo há retornos muito, muito significativos.


Por exemplo, esta possibilidade de se montar uma coisa com poupança de esforços, com poupança de interrupção das nossas vidas.


PR: E temos aqui, se calhar, um sinónimo de uma oportunidade que surge, não é?


SA: Exatamente, eu acho que foi uma oportunidade extraordinária porque é, mesmo, importante repensar nisso porque os grandes congressos muito internacionais em termos de disponibilidade, investimento, deslocações e interrupção da vida profissional e familiar… custos, às vezes, temos muitos profissionais jovens ainda em formação cujo o investimento em formação contínua é ainda significativo, portanto um congresso virtual mas integrado, com gente de qualidade internacional é um estímulo para a formação ser contínua e para, perdoa-me a expressão inglesa, cross fertilization de interesses e de saberes.


Eu acho que a gente vive muito de estímulos e precisamos de ouvir pessoas com experiências diferentes para nos sentirmos cativados, até rever aquilo que fazemos no nosso torrão natal.


PR: Portanto, para além daquilo tudo que a Susana já disse e a expectativa deste evento é de uma grande expectativa, o que é que nós podemos ainda esperar mais?


SA: Eu estou particularmente interessada em ouvir, não só a experiência brasileira, mas também, a experiência que vem de outros lugares do mundo e vamos ter alguns convidados de outros lugares do mundo.


Mas também das instituições que trabalham em colaboração, como por exemplo, quem trabalha nos hospitais que têm doentes oncológicos, e aqui as ligas de voluntariado, essas organizações sociais têm um papel importante.


Nós, em Portugal, temos obviamente a Liga Portuguesa Contra o Cancro que é notável naquilo que tem feito ao longo de décadas e décadas.

Mas o curioso é que há muitos profissionais que trabalham no terreno e que estão mais ou menos dispersos e integrados nas próprias instituições que desconhecem, por exemplo, o que está a acontecer a cinquenta quilómetros ao lado, e que tipo de colaborações podem ser estreitadas.


Portanto, a ideia deste congresso não é só um up to date naquilo que é o conhecimento científico e naquilo que são as intervenções mais atuais nas várias áreas de saber da Psico-Oncologia, mas também perceber de que forma podemos estreitar contactos, sinergias, fazer pontes e melhorar os recursos, e os recursos não são infinitos.


E há muita coisa que, se calhar, pode ser melhor utilizada e melhor trabalhada em equipa.


Até é irónico, não é? Porque se nós somos uma subespecialidade que tenta a multidisciplinaridade e estreitar pontes então, porque não devemos começar na própria casa, não é?


PR: Exatamente! Estamos quase no final do nosso tempo, a Susana quer deixar um convite aos participantes?


SA: Sim deixo!

Venham o mais que puderem, tragam as vossas experiências, as vossas dúvidas, as vossas vontades, para que nós também possamos percebê-las e tentar ir ao encontro do que precisam, quer através da organização de formações futuras, quer através da partilha de experiências. Tragam os vossos casos, as vossas angústias, é também para isso que serve.


Vamos ter, por exemplo, um workshop e penso que vai ser muito entusiasmante, é focado no Ballint que é exatamente o nosso ponto de começo de como é que nos podemos organizar enquanto equipa, mantendo a saúde mental e aumentando a estabilidade dentro da equipa, trabalhando melhor.


O Ballint são grupos de suporte de profissionais para profissionais e é uma coisa que nos surgiu naturalmente porque, por exemplo, este trabalho redobrado é muito gratificante sem dúvida, mas também é muito extenuante do ponto de vista físico e mental e, portanto, muitos de nós também precisamos de apoio pelos pares, de uma forma não só oficiosa, mas também oficial, assertiva e continente porque não é fácil as vezes fazer reset, portanto sejam muito bem -vindos, tragam desejos e vontade, dúvidas e angústias, eu acho que pode ser uma experiência muito boa, com muitas oportunidades de troca de experiências.


PR: Muito obrigada Susana foi um gosto esta conversa breve, podem seguir o congresso luso-brasileiro online no site, no Facebook, no Instagram, no LinkedIn e cá vos esperamos a todos!


SA: Obrigadíssima Paula!


PR: Bem-haja, Susana!

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