Oncologia não é só moléculas ou alvos, diz Ricardo Caponero

(…) o trabalho psicológico é fundamental, junto com o trabalho oncológico para melhorar o rastreamento, melhorar a adesão ao tratamento, melhorar as condições em que os pacientes vivem, melhorar a qualidade de vida. Este congresso é extremamente importante para estreitar essas relações e mostrar que a oncologia não é só moléculas ou alvos, mas que tem um paciente que porta essas moléculas, que porta esses alvos e que precisa de ser cuidado, além de ter o seu alvo molecular tratado.(...)

Paula Ribeiro (PR): Bem-vindos ao Trend Talks, um espaço onde se fala sobre tendências. O tema é Psico-Oncologia e o meu nome é Paula Ribeiro. Connosco está Ricardo Caponero, mestre em Oncologia Molecular.

Bem-vindo, Ricardo!


Ricardo Caponer (RC): Olá Paula, muito obrigado pela oportunidade.


PR: Ricardo, a Oncologia é um tema extenso, pela sua multidisciplinariedade na abordagem da doença. Ser mestre em Oncologia Molecular pressupõe um conhecimento muito profundo de todo o contexto oncológico. Eu ia-lhe pedir para nos falar um pouco sobre o seu percurso.


RC: Eu me formei há 30 anos atrás, desde então faço oncologia.

Fiz a minha especialização na área de oncologia clínica e fiz o meu mestrado em oncologia molecular e só trabalho exclusivamente nessa especialidade.


A oncologia é cada vez mais sofisticada, cada vez mais a gente fala de alvos moleculares, terapia alvo, imunoterapia, mas sempre foi uma especialidade multidisciplinar.

Até no cuidado da prevenção do câncer os aspetos psicológicos têm um papel muito importante.


Por isso o nome Psico-Oncologia, eu acho que é muito feliz essa integração, porque de facto o trabalho psicológico é fundamental, junto com o trabalho oncológico para melhorar o rastreamento, melhorar a adesão ao tratamento, melhorar as condições em que os pacientes vivem, melhorar a qualidade de vida.


Este congresso é extremamente importante para estreitar essas relações e mostrar que a oncologia não é só moléculas ou alvos, mas que tem um paciente que porta essas moléculas, que porta esses alvos e que precisa de ser cuidado, além de ter o seu alvo molecular tratado.

PR: Ricardo, Portugal e Brasil partilham a mesma língua e alguns aspetos culturais. No entanto, podemos encontrar muitas assimetrias entres estes nossos dois países, nomeadamente, quando estamos a falar de cancro ou de câncer, como vocês dizem no Brasil.

O Ricardo vai integrar uma sessão plenária no congresso, juntamente com o doutor Vítor Rodrigues, presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro, onde irão falar sobre os aspetos culturais do cancro, em ambos os países - Portugal e Brasil.

Gostaria de lhe perguntar, antecipadamente, quais é que são os aspetos culturais mais emergentes num país como o Brasil.


RC: Acho que vai ser uma aula bastante feliz, porque a gente tem algumas coisas em comum do paciente oncológico, mas as realidades são totalmente diferentes.


Têm sistemas de saúde diferentes, culturas diferentes e pacientes que têm comportamentos diferentes. Então, conhecer de cada lado o que cada um vive, é muito interessante, muito curioso e acho que vai ser muito proveitoso.


Aqui no Brasil, melhorou muito a divulgação, a gente fala com mais naturalidade da doença, mas os medos do paciente e a associação de câncer com morte ainda são muito dominantes.

Um tema cada vez mais importante é a discussão do acesso ao tratamento.


Tem cada vez mais pacientes dependendo do sistema público de saúde, onde nem sempre se consegue dar um tratamento adequado, um tratamento de ponta.

O paciente sofre de angústia em saber que talvez haja tratamentos que estejam disponíveis do ponto de vista científico, mas que não são acessíveis do ponto de vista prático.


Tudo isso causa alguns conflitos até de ordem psicológica e social para o paciente.

Eu acho que mostrar essas duas diferentes realidades, o quanto ela impacta no psiquismo, no curso da doença do paciente é de facto muito importante.


PR: O Ricardo estava a falar de um aspeto bastante relevante, que é a própria forma como nós hoje já conseguimos olhar para a doença, já temos uma perspetiva de esperança. Um diagnóstico de cancro já não é exatamente uma sentença de morte.


RC: A gente tem hoje um aumento importantíssimo do tempo de vida, embora se saiba que a resistência ao tratamento ainda é a regra.


Consegue-se curar muito mais quando se faz um diagnóstico precoce e quando se faz prevenção primária, já que na doença metastática, embora tenha aumentado para algumas doenças mais de dez vezes o que era a sobrevida, há trinta anos atrás.


Por exemplo, o câncer do intestino grosso, o câncer do colón, tinha uma sobrevida, há trinta anos atrás, de seis meses e hoje ultrapassa os trinta meses.


O câncer do pulmão com imunoterapia teve um aumento exponencial da sobrevida.

Mas, infelizmente, na doença metastática, apesar do ganho de sobrevida, a resistência ainda é a regra e há muitos pacientes que ainda falecem da doença.


E da perspetiva do tratamento, mudou o cenário da doença, mas ainda tem que se lidar frequentemente com um diagnóstico de fatalidade.


PR: E os aspetos psicológicos podem ser fortes aliados em toda essa longevidade, digamos assim.


RC: Com certeza, e até no aspeto de diagnóstico precoce.

A gente sabe hoje que muitos pacientes não fazem a sua mamografia, não fazem a sua colonoscopia, não fazem os exames com medo de achar a doença.


Ou seja, com um comportamento inadequado, sem fazer seu rastreamento com o exame de copo citológico genital, sem fazer seus exames de prevenção.

Há essa recusa aos exames de prevenção.


Muitas vezes retarda o diagnóstico, alguns pacientes negligenciam sintomas importantes, então o aspeto psicológico está presente desde o diagnóstico inicial, desde a prevenção, quando a gente teria mais chances de cura.


O aspeto psicológico bem tratado é fundamental até para aumentar a curabilidade e, obviamente, para tolerar melhor o tratamento, tolerar melhor os efeitos colaterais e minimizar sequelas.


Hoje, grande parte dos pacientes que sobrevivem ao câncer não voltam para uma vida normal, não conseguem voltar para a sua atividade laboral habitual, não conseguem voltar para o seu convívio habitual e passam a viver como ex-cancerosos.


Uma vida não só total, em plena qualidade de vida. Todos esses aspetos, desde a prevenção até às fases finais da doença, a abordagem psicológica é fundamental.


PR: Uma doença que poderia ser logo à partida fatal, mas que se transforma numa doença crónica, que tem que ser gerida ao longo da vida.


RC: E às vezes com sequelas que são persistentes.

Nem sempre se consegue retomar uma vida absolutamente normal.


Até a minimização dos danos tardios e, às vezes, associado à perda de fertilidade, menopausa precoce, perda de potência sexual, perda de capacidade laboral, ou seja, lidar com tudo isso e dar uma nova visão para a vida, dar um ressignificado para a vida, também é um aspeto importante da psico-oncologia.


PR: A realização deste congresso, o 1º Congresso Luso-Brasileiro de Psico-Oncologia, organizado pela Academia Portuguesa de Psico-Oncologia e pela Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia será uma grande mais-valia neste encontro de realidades.

Ricardo, o que é que podemos esperar deste evento?


RC: Eu acho que é exatamente essa troca, essas visões diferentes, essas visões plurais que podem fazer com que cada um veja melhor a sua própria realidade e entenda a sua realidade a partir do reflexo do que o outro faz.


Acho que é extremamente engrandecedor, é uma abertura de horizontes, esse é o primeiro contacto, então espero que seja um contacto de uma produtividade conjunta muito grande.


A gente está muito entusiasmada com essa troca de experiências, com certeza Portugal tem muito para ensinar, também. Vocês têm hoje testamento vital, que são muito mais desenvolvidos que aqui no Brasil. São problemas interessantes.


A gente está ansiosa por essa colaboração mútua e quem sabe trabalhos de produção científica e outros congressos no futuro.


PR: Quer deixar um convite à participação no congresso?


RC: Sim, eu queria que todos pudessem participar.

O congresso vai ser dia 16 e 17 de setembro, totalmente online. Isso facilita muito a vida da gente.


E acho que vai ser muito enriquecedor e quanto mais puderem participar e tiverem debatendo com a gente nas mesas, dando opinião e fazendo perguntas, mais enriquecedor esse congresso pode ser.


Gostaria muito que vocês participassem dia 16 e 17 de setembro, neste congresso.

O primeiro congresso integrado de Psico-Oncologia.


PR: Para terminar, dizer que Congresso vai acontecer exclusivamente online. Podem consultar o site do congresso, nas redes sociais: facebook, instragram e linkedin e esperamos por todos!

Ricardo, foi um gosto falar consigo. Muito obrigada.


RC: O mesmo Paula. Muito obrigado.


PR: Obrigada. Um bem-haja.

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