E quando o luto é dos profissionais de saúde? Esta é a reflexão de Maria Júlia Kovacs

(…) O que se observa é que para o bem cuidar, o envolvimento acaba acontecendo e com alguns pacientes de uma forma mais intensa, tem que ver com o tempo de duração do atendimento ou de características pessoais do paciente ou dos familiares, são várias situações que se estabelecem, então os profissionais sentem sim um processo que a gente poderia denominar de luto, porque é perda significativa e o que acontece é que muitas vezes esse luto não é reconhecido, não é dado lugar e espaço para que ele seja elaborado. (…)

Paula Ribeiro (PR): Bem-vindos ao Trend Talks, um espaço onde se fala sobre tendências, o tema é Psico-Oncologia e o meu nome é Paula Ribeiro. Connosco está Júlia Kovács, professora de Psicologia, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Bem-vinda, Júlia!


Júlia Kovács (JK): Obrigada pelo convite Paula e a todos que irão participar no congresso.


PR: Júlia é professora de psicologia. Ensinar psicologia é também um ato de grande aprendizagem. Fale-nos um pouco do seu percurso.


JK: Eu estou no Instituto de Psicologia desde 1982, há bastante tempo.

Ensinar psicologia foi sempre a minha atividade principal, embora eu também tenha atividade clínica e especialização em Psico-Oncologia.


De momento, eu sou professora aposentada, mas continuo ministrando disciplinas na graduação e na pós-graduação, envolvendo o tema de morte, luto, Psico-Oncologia e a questão dos profissionais de saúde e educação.


PR: A Júlia irá fazer parte de uma mesa de debate sobre as necessidades de quem cuida em tempos de pandemia. Os tempos que correm, são efetivamente tempos desafiantes. Estão a levantar inúmeros desafios a todos, principalmente aos doentes. Eu ia-lhe pedir que de forma resumida, me dissesse quais é que considera ser os principais desafios para os doentes.


JK: Nós temos uma pandemia que se instalou em 2020 e a cada momento nós imaginamos quando é que vai terminar, mas ela não termina.


Estamos vivendo vários processos durante esse período e agora em 2021 no mundo, e especialmente no Brasil, tivemos situações bastantes difíceis.


Então, os profissionais de saúde, principalmente os que estão na linha da frente e também os que estão na retaguarda, cuidando desses pacientes e também dos profissionais da linha da frente, têm vivido situações bastante difíceis e que demandam uma organização psíquica muito importante, mas que às vezes a situação, a atividade se torna extremamente penosa.


O título da minha fala é o luto dos profissionais de saúde que perderam e perdem pacientes por causa da covid-19.


Muitas vezes, não têm tempo para elaborar o seu luto, para poder trabalhar com os seus sentimentos, então isso vai trazer uma sobrecarga física e psíquica que precisa de cuidados.


A gente vai discutir também a importância desse espaço de cuidados nas instituições de saúde, para que esses profissionais possam ter o amparo e possam continuar fazendo a sua tarefa de cuidar.


PR: Júlia, como estava a dizer a sua intervenção nesta mesa será sobre o luto dos profissionais de saúde. Os profissionais são quem estão a vivenciar o desafio da doença, não estão a vivenciar o desafio da doença de uma forma direta, mas são quem estão à procura, permanentemente, de soluções para os diferentes aspetos da doença. Onde, obviamente, também se incluem, também vivenciam de certa forma todo este dilema, digamos assim.

Eu ia-lhe pedir para nos falar um pouco mais de todo este processo de luto dos profissionais de saúde, principalmente quando estão a lidar com a doença cancro.

JK: Em relação ao câncer, mais particularmente, na pandemia e fora da pandemia é um processo que demanda dos profissionais um envolvimento bastante grande com os pacientes e com os familiares e muitas vezes resulta que, embora tenha excelentes tratamentos em todo o processo, estes pacientes acabam falecendo.


E durante muito tempo, o luto desses profissionais, principalmente com aqueles que estabelecem um vínculo mais profundo, esse luto não é autorizado, ainda em muitos lugares, na sua formação, mesmo em várias instituições há uma crença errónea de que o profissional não se deve envolver com o seu paciente ou com os familiares e, portanto, ele não estaria sofrendo um processo de luto.


O que se observa é que para o bem cuidar, o envolvimento acaba acontecendo e com alguns pacientes de uma forma mais intensa, tem que ver com o tempo de duração do atendimento ou de características pessoais do paciente ou dos familiares, são várias situações que se estabelecem, então os profissionais sentem sim um processo que a gente poderia denominar de luto, porque é perda significativa e o que acontece é que muitas vezes esse luto não é reconhecido, não é dado lugar e espaço para que ele seja elaborado.


Essa é uma discussão importante para que as instituições que atendem pacientes com câncer, que atendem os seus familiares, tenham espaço de cuidado também para os seus profissionais no seu processo de luto, dando ferramentas e possibilidades para que possam se cuidar nesses aspetos.


Com a pandemia, houve um exacerbamento porque muitos pacientes acabaram tendo os seus tratamentos postergados, chegam num estágio mais avançado, então acho que é uma discussão muito importante para ser feita.


PR: Até porque segundo aquilo que nos está a dizer, o luto não é autorizado. Ou seja, se por um lado o luto não é autorizado, por outro lado, o vínculo emocional entre o profissional de saúde e o doente é algo necessário. Há aqui, logo à partida, um contrassenso e uma falha no entendimento deste processo.

JK: É isso mesmo, Paula.

E é muito importante porque o luto não reconhecido tem uma carga maior de sofrimento, porque tem o processo mesmo da elaboração do luto e não sendo reconhecido, não há o espaço, não há a possibilidade do cuidado, que é extremamente necessário, nesse caso.


É fundamental que a gente possa discutir estas questões e entender sim, que profissionais de saúde entram em processo de luto e que precisam de cuidados.


Porque esse luto, que não é reconhecido, pode acarretar uma doença laboral, conhecida como Síndrome de Burnout ou fadiga de compaixão.

Mas também a Síndrome de Burnout é uma síndrome que incapacita muitas vezes o profissional a cuidar de forma mais humanizada, mais envolvida com os seus pacientes.


PR: Então podemos dizer que temos de cuidar dos nossos doentes sim, mas também temos que cuidar de quem cuida dos nossos doentes.


JK: Sem dúvida!

Esse é um trabalho essencial que deve ser reconhecido, não é uma situação que a gente deve dizer “ah não, mas o profissional vai se cuidar num lugar lá fora, vai fazer a sua terapia, a instituição não precisa de se preocupar com isso.”


Precisa sim, de incentivar, criar espaços de cuidados, reuniões de equipe, supervisão de casos mais difíceis, espaços de vivência e de troca de sentimentos e fortalecimento de trabalho de equipe. Enfim, são várias circunstâncias que podem ser importantes nesse trabalho de cuidado ao profissional de saúde enlutado.


PR: Várias circunstâncias que têm que ser conversadas, faladas e estudadas.


JK: Sim, sem dúvida.

Eu acho que o congresso, ao trazer esse assunto, ele proporciona aos participantes a possibilidade de reflexões, de trocas de experiências sobre essas questões que se vinculam, agora, ao profissional de saúde machucado, vamos dizer assim. Se podemos usar esse termo.


PR: Machucado no Brasil, magoado em Portugal!

Júlia estávamos a falar aqui do congresso, portanto, a Academia Portuguesa de Psico-Oncologia e a Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia, juntam-se e organizam o 1º Congresso Luso-Brasileiro de Psico-Oncologia. Este vai ser um evento importante, e não só pela troca de experiências e pela aproximação de realidades. Eu ia-lhe perguntar se quer deixar um convite à participação neste evento.


JK: É muito importante sendo o primeiro evento, ele firma uma aliança, também, entre esses dois países - Brasil e Portugal – numa área que tem tido um progresso bastante grande no Brasil e em Portugal, sem dúvida e é muito importante essa troca, esse compartilhamento, então os assuntos que serão debatidos são assuntos importantes.


A gente gostaria muito que quem pudesse e quem quisesse participar que venha, porque sem dúvida será um evento com muitas trocas, também de culturas diferentes e isso pode ajudar tanto os brasileiros como os portugueses e pessoas de outros países, que por ventura também participarão, a discutir questões muitos importantes na área da Psico-Oncologia.


PR: Venham, participem. Vai ser um congresso online. Podem acompanhar o congresso no site, nas redes sociais: Instagram, LinkedIn, Facebook, fazer perguntas, trazer questões, uma participação ativa.

Júlia, muito obrigada por esta breve conversa e até ao congresso.


JK: Paula, também foi um grande prazer.


PR: Júlia, bem-haja!

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