Um ato de amor manifestado na psico-oncologia - Maria da Glória Gimenes.

(...) Primeiro é o interesse verdadeiro, uma vontade legítima de amor, de compaixão, de ir ao encontro dessas necessidades, da pessoa entre a vida e a morte e seus familiares.

Segundo desafio, seria a preparação pessoal do profissional. Se preparar em termos de autocuidado, como ele se cuida, como profissional, mas acima de tudo, como pessoa tem lidado com as suas ameaças, com os seus medos da morte, com os seus medos de abandono, com as suas perdas ao longo da sua vida.(...)

Paula Ribeiro (PR): Bem-vindos ao Trend Talks, um espaço onde se fala de tendências. O tema de hoje é Psico-Oncologia, o meu nome é Paula Ribeiro e connosco está Maria da Glória Gimenes, pioneira de Psico-Oncologia, no Brasil.

Bem-vinda, Maria da Glória!


Maria da Gloria (MG): Obrigada.


PR: Maria da Glória, ser pioneira de Psico-Oncologia no Brasil é, antes de mais, um ato de amor. Fale-nos um pouco do seu percurso.


MG: Psico-Oncologia na verdade, se tornou o grande objetivo da minha vida. Eu fiz psicologia no Brasil, fiz o meu mestrado e o meu doutorado nos Estados Unidos, em Chicago.

E voltando ao Brasil, eu comecei junto com outros colegas, também pioneiros, a organizar a formação da área no Brasil, organizando congressos, grupos de estudo, montando serviços em vários hospitais brasileiros.


E, na verdade, depois da minha experiência, que foi bastante académica na universidade de Brasília, a nossa preocupação seria a formação profissional de qualidade dessa nova área no Brasil, naquela época.


Depois, formamos também a Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia, na qual eu fui uma das primeiras presidentes e hoje, com a atual presidência e com todos os esforços dos outros presidentes, a Psico-Oncologia tem um desenvolvimento significativo no nosso país.


PR: Maria da Glória, no seu percurso tem também vários livros da sua autoria, quer nos falar um pouco sobre esse processo?


MG: Sim, na verdade quando eu cheguei dos Estados Unidos não havia livros brasileiros em português, que facilitassem a formação profissional de psicólogos, médicos, assistentes sociais, profissionais na área da saúde, interessados em trabalhar na área de psicologia.


Então, o primeiro livro de Psico-Oncologia no Brasil, depois tem vários livros sobre… Um dos livros importantes que eu organizei e fiz, foi A mulher e o Câncer, falando sobre todo o processo de adaptação psicológica, sócio espiritual da mulher com câncer.


Teve livro de prevenção em Psico-Oncologia, prevenção é uma área importante que a gente deu atenção. E o último livro, do ano passado, foi Cuidados Paliativos, um modelo integrativo de trabalho em Psico-Oncologia.


São livros que foram organizados, observando a tendência e necessidade de atendimento a pessoas com câncer.


PR: A Maria da Glória vai ministrar um workshop no primeiro Congresso Luso Brasileiro de Psico-Oncologia. Nesse workshop o tema será: O processo de transição entre a vida e a morte, um desafio de atuação para a Psico-Oncologia.

O que eu lhe queria perguntar é: Se tivesse que identificar os três principais desafios nesta área, para a Psico-Oncologia, quais seriam esses desafios e como é que os descreve?


MG: Na verdade, eu acho que o primeiro desafio, é um desafio pessoal.

Seria verdadeiramente um interesse por trabalhar nesta área. Realmente, facilitando o processo da agonia vivenciado pela pessoa e os familiares, que estão acompanhando a pessoa que está entre a vida e a morte.


Primeiro é o interesse verdadeiro, uma vontade legítima de amor, de compaixão, de ir ao encontro dessas necessidades, da pessoa entre a vida e a morte e seus familiares.


Segundo desafio, seria a preparação pessoal do profissional. Se preparar em termos de autocuidado, como ele se cuida, como profissional, mas acima de tudo, como pessoa tem lidado com as suas ameaças, com os seus medos da morte, com os seus medos de abandono, com as suas perdas ao longo da sua vida. É uma questão que precisaria estar realmente bem resolvida.


Além disso, quando a gente trabalha nessa área, num momento de transição entre vida e morte, surgem várias questões de natureza emocional: medo, ansiedade, culpa, raiva, necessidade de trabalhar o perdão.


Além de todas essas questões muito especificas, que a gente vai abordar no workshop, surgem questões de natureza espiritual.


Então o profissional tem um grande desafio: o de perceber se ele, como pessoa, tem razoavelmente resolvido ou a caminho da resolução questões de natureza espiritual, como por exemplo: Quem é Deus na minha vida? O que vai acontecer comigo após a minha morte? Tem alguma coisa na vida, pós-morte? Se tem, eu tenho medo? Eu confio? Como é que eu resolvo essas dúvidas, essas ameaças? Como é que isto está para mim como pessoa? Porque, sem dúvida, irá refletir na atuação profissional.


E o terceiro ponto, seria realmente questões técnicas, questões de conhecimento técnico, teórico, concetual e a familiaridade com as pesquisas e os resultados na área de Psico-Oncologia, nessa fase específica que é o processo de transição entre a vida e a morte.


Então, se a gente for sintetizar esses três pontos centrais que você perguntou Paula, eles dizem respeito à formação técnica, concetual e teórica e à sua formação pessoal. Como pessoa frente à vida e à morte, frente às suas conquistas e às suas perdas.


PR: Digamos que numa linguagem menos técnica, este profissional terá que ter um nível de maturidade pessoal bastante grande?


MG: Sim, é verdade. Ele terá que ter consciência de quem é, do que viveu, uma reflexão de como tem vivido, sobre porque vale a pena viver. Na verdade, a gente pode chamar de maturidade, uma experiência de vida bastante consistente e refletida. Eu acho que você está correta.


PR: Maria da Glória, este é um tema interessantíssimo, efetivamente. Portanto, vai acontecer no primeiro dia do congresso, no workshop que a Maria da Glória irá ministrar.

E aquilo que eu gostava de lhe perguntar, Maria da Glória é: O porquê deste congresso, o que justifica este evento?


MG: Eu acho que tem muitas coisas em comum. A grande maioria do povo brasileiro tem um carinho muito especial pelo povo português, a grande maioria de nós, eu pessoalmente, também vim de família portuguesa. A minha mãe é nascida em Coimbra e, na verdade, além disso nós temos a mesma língua e culturas semelhantes.


Eu acho que é o momento de a gente compartilhar o quanto nós andamos, o quanto ambos os países evoluíram no atendimento às pessoas com câncer.


Vai ter muita coisa para trocar a nível de experiência, devido aos nossos interesses que são significativos em ambas as culturas, como também a familiaridade, a similaridade com as questões culturais, psicológicas e espirituais.


Eu acho que vai ser um congresso muito importante, tanto para Portugal como para o Brasil, temos muito que aprender juntos.


PR: Era isso que eu iria perguntar, portanto, esse encontro de realidades poderá ser aqui, podemos encontrar aqui uma mais-valia para ambos os países?


MG: Sem dúvida!


PR: Então, o que é que nós podemos esperar?


MG: Eu acho que a gente pode esperar duas coisas: primeiro partilhar técnicas, partilhar experiências de como ambos os países evoluíram ao longo dos desafios que encontramos em Psico-Oncologia.


Segundo aprendemos técnicas que podem ser significativas para ambos e terceiro, eu acho que podemos fazer reflexões: aonde chegámos até hoje e aonde vamos chegar, fazendo trocas em projetos de pesquisas partilhando casos, ideias e publicações.


Eu acho que é muito mais avaliarmos onde chegamos, o que podemos trocar e daqui para afrente, como juntos poderemos dar uma contribuição significativa na área de Psico-Oncologia internacional.


PR: Maria da Glória quer deixar um convite aos participantes do congresso?


MG: Sim! Eu gostaria de convidar a todos a participar no congresso, os temas são interessantíssimos, os participantes todos de alto nível.


E quanto ao workshop, eu gostaria de enfatizar que vou fazer um workshop bastante prático, com bastantes exercícios práticos, em que a gente possa realmente trocar experiências, ideias, sentimentos, dúvidas, que seja a prática dos referenciais teóricos e técnicas, que tanto os profissionais portugueses, como os profissionais brasileiros têm lido, têm usado nas práticas individuais.


Eu acho que é importante praticarmos juntos, vivenciar juntos esse momento tão importante, que é o processo do paciente e suas famílias, na transição entre a vida e a morte.


E, acima de tudo, também vamos fazer reflexões pessoais: como é que nós como pessoas, como profissionais nos sentimos e nos posicionamos frente à vida e à morte.


Desta forma, para que as nossas próprias experiências pessoais se possam refletir nos nossos trabalhos profissionais, de formas positivas e bastante significativas. Vai ser um workshop, iminentemente, prático.


PR: Maria da Glória, foi um gosto conversar consigo este bocadinho. A todos os que nos ouvem, que o Primeiro Congresso Luso Brasileiro de Psico-Oncologia, será um congresso exclusivamente online e poderão acompanhar-nos nas redes sociais: LinkedIn, Instagram, Facebook e no próprio site do evento e contamos com a participação de todos.

Maria da Glória, muito obrigada.


MG: Muito obrigada, eu é que agradeço foi um prazer enorme.


PR: Bem-haja.


MG: Obrigada.

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