A Psico-Oncologia no Brasil, pela voz de Fabiana Caron, presidente da SBPO

Atualizado: 13 de set. de 2021

(…) a oportunidade, de trocar esse saber, trocar as formas de trabalho até na questão de comparar como é trabalhar num lugar onde você tem 100 hospitais de câncer e em Portugal que são poucos, mesmo em questão de tamanho, como é que é isso? Será que é melhor, será que é pior? Quais são as angústias? Quais são as alegrias? O paciente europeu tem demandas diferentes em relação ao nosso paciente que é sul-americano? Tudo isso são trocas extremamente ricas e até necessárias (…)


Paula Ribeiro (PR): Bem-vindos ao Trend Talks, um espaço onde se fala de tendências e o tema de hoje é Psico-Oncologa. O meu nome é Paula Ribeiro e connosco está Fabiana Cáron, presidente da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia.

Bem-vinda, Fabiana!


Fabiana Caron (FC): Obrigada Paula, agradeço aos colegas por esta oportunidade.


PR: Fabiana, eu começaria por lhe perguntar, o que é Psico-Oncologia?


FC: Psico-oncologia na verdade é uma área de atuação, que faz uma interface entre a oncologia e a psicologia.

Na verdade, a Psico-oncologia, enquanto área de atuação, vai usar as técnicas da psicologia, das intervenções e de todas as nossas ferramentas, para ter um olhar específico para o paciente de câncer.


O psico-oncologista é aquele profissional que vai atuar nas demandas mentais e emocionais dos pacientes que estão em tratamento do câncer assim, também, como dos seus familiares e também da própria equipe de cuidados.


PR: Fabiana, podemos dizer que estamos perante um trabalho altamente multidisciplinar, com intervenção de várias especialidades?


FC: Totalmente, a gente hoje não pode mais pensar no tratamento do câncer sem uma equipe multiprofissional.

Não tem mais como você, hoje, dar conta das demandas que um paciente oncológico, por ter uma doença grave que ameaça a vida, ter apenas o suporte do médico oncologista.


Ele vai trazer com ele a pessoa que é, adoecido pelo câncer. Junto com ele virão os sofrimentos emocionais, mentais. Virá o sofrimento social, o sofrimento espiritual e o sofrimento sociofamiliar.


Então, é esse olhar que a gente precisa de ter para com esse paciente e, a partir disso, em equipe, juntos cada um na sua especialidade, mas olhando para aquele paciente com um todo, dar esse suporte que é tão necessário.


PR: Exato, porque efetivamente a oncologia tem um impacto emocional muito, muito grande, não é? Para além, de todo o impacto da doença.


FC: Exatamente.

Eu sempre falo que muitas vezes o câncer, no primeiro momento da descoberta do diagnóstico, causa um impacto muito mais emocional do que propriamente físico.


Porque muitas vezes a pessoa está vivendo a vida dela, não está apresentando nenhum sintoma, nenhuma dor e descobre que está adoecida com câncer.

Isso acaba causando um sofrimento muito mais emocional do que propriamente físico, então é importante um psico-oncologista junto, trabalhando todas essas questões.


PR: Fabiana como é que está a Psico-Oncologia no Brasil?


FC: A Psico-Oncologia no Brasil, quando falamos do Brasil eu falo que a primeira coisa que a gente tem de ter em mente é a dimensão do país que é o Brasil. O Brasil é um país continental, está entre os 5 maiores países do mundo, tanto em extensão territorial quanto em população.


Quanto maior é, maior é a complexidade de tudo o que é necessário. Existem alguns lugares no Brasil que chamamos de estados, muitos lugares da Europa, vocês conhecem até como províncias, mas em alguns lugares temos na grande maioria dos serviços, Psico-oncologista, às vezes até mais do que um, ainda somos poucos, mas temos o serviço.


Mas infelizmente, em alguns lugares do Brasil nós não temos esse profissional porque inclusive é escasso até o próprio tratamento médico. Não temos nem o básico, que é o tratamento médico.


Infelizmente, ainda não é possível ter esses profissionais, contudo hoje, temos leis no país que regem e que tornam obrigatória a presença do psico-oncologista em alguns serviços de câncer, porque aqui no Brasil, nós temos também algumas peculiaridades, temos um serviço que é totalmente gratuito, que realmente a população não paga. Pagamos impostos, mas temos acesso a esse tratamento, mas também temos o que chamamos de médicos privados, é uma medicina que você paga.


Diante desses dois extremos, a gente vai ter a lei que protege, mas também vai ter o contraponto onde a lei não chega.


Cada vez mais, a gente faz um trabalho para que todos tenham acesso, independentemente se você está pagando pelo tratamento, de certa forma ou não, porque pagando todos estão, mas que minimamente tenham uma equipe para dar esse suporte e que os pacientes tenham o mesmo tratamento, independentemente, de onde estiverem.


PR: Isso é um ótimo princípio, principalmente num país como o Brasil, como a Fabiana falou. Portanto, é um país muito grande quer em dimensão quer em número de população e isso impõe aqui algumas assimetrias desde logo e, também, enormes desafios acredito, não é?

Mas como disse, há aqui toda uma intenção de cobertura, de chegar a todos e dar suporte independentemente da tipologia do doente, do acesso ao tratamento.


FC: Exatamente.


PR: Fabiana, a Academia Portuguesa de Psico-Oncologia e a Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia unem-se pela primeira vez, para organizar o primeiro Congresso Luso Brasileiro de Psico-Oncologia, e a minha pergunta é: o que que motivou esta realização?


FC: Primeiramente, as motivações são várias. São tanto de cunho profissional, científico, mas nós como profissionais de saúde da mente emocional, a gente também tem essa parte.


Nós sabemos da história do Brasil e de Portugal, temos uma história de raízes, de laços afetivos e tudo mais. Nós nutrimos afeto por Portugal, claro que o brasileiro gosta de viajar e tudo mais, mas Portugal faz parte da história do Brasil, foi onde tudo começou, até hoje existem descendentes.


Então, quando tivemos esta oportunidade de ter essa troca com Portugal, para a gente foi uma grande alegria, porque na psicologia ou então vamos falar até da Psico-Oncologia, porque o Brasil em relação a Portugal, tem uma pequena nuance: em Portugal os psico-oncologistas são na maioria médicos psiquiatras e aqui no Brasil não, aqui a grande maioria são psicólogos, que são psico-oncologistas.


Independentemente disso, trabalhamos no mesmo seguimento, a psicologia portuguesa é uma psicologia muito forte, é muito profissional, é muito competente, tem muitas publicações relevantes, não só na área da psico-oncologia, mas na psicologia e na saúde mental como um todo.


E no Brasil temos excelentes profissionais, muito! Mas temos uma dificuldade maior até por uma questão dessas diferenças de país mesmo, de estar publicando.


Temos excelentes profissionais, mas a ciência para gente, o fazer pesquisa tem um pouco mais de dificuldade, então a gente sempre está lendo artigos de Portugal, acompanhando porque realmente existem profissionais na nossa área, muito competentes.


Quando a gente teve a oportunidade, de trocar esse saber, trocar as formas de trabalho até na questão de comparar como é trabalhar num lugar onde você tem 100 hospitais de câncer em Portugal que são poucos, mesmo em questão de tamanho, como é que é isso? Será que é melhor, será que é pior? Quais são as angústias? Quais são as alegrias? O paciente europeu tem demandas diferentes em relação ao nosso paciente que é sul-americano?


Tudo isso são trocas extremamente ricas e até necessárias, porque neste mundo de globalização em que estamos, é importante a gente saber como é que os nossos colegas, sejam da Europa, sejam da América do Norte, estão trabalhando com essa demanda, que acaba sendo um problema mundial, o câncer.


PR: E pode ser exatamente aqui nestas diferenças e nestas duas realidades que são bem distintas, portanto logo à partida os dois países têm na sua base a mesma língua, mas são dois países com realidades bastante diferentes, como a Fabiana estava a dizer. E, provavelmente, a atuação no terreno da própria especialidade pode ter aqui um contributo de ambos os países muito forte e muito positivo, para cada um deles, não é?


FC: Exatamente, eu penso que este primeiro congresso é importante, porque vai agregar muitas coisas.


Vamos conhecer o que vocês estão fazendo aí (Portugal) e que pode ser muito útil para a gente e vice-versa. A riqueza dessa troca de saber, dessa troca da profissão, fazer com que a Psico-Oncologia seja vista e a sua importância, independente de qual pólo em que estamos.


PR: Fabiana depois de tudo isso quer deixar um convite aos participantes do congresso?


FC: Quero, sim! A Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia, eu enquanto presidente da nossa atual diretoria, juntamente com a Associação Portuguesa de Psico-Oncologia, gostaríamos muito que vocês estivessem connosco, para essa troca, para nos auxiliar, para trazer questões, discutir para que possamos levar a Psico-Oncologia, não apenas ao Brasil e a Portugal, mas que seja ramificada para muitos outros lugares.


O programa está muito bom, estamos com excelentes workshops de profissionais fantásticos, as plenárias também estão muito interessantes, até pela questão da pandemia, também se vai falar sobre isso.


Fica o convite para que vocês estejam connosco, para que essa troca seja a primeira de muitas outras que virão.


PR: E que essa troca fortaleça cada vez mais a Psico-Oncologia, não é?


FC: Exatamente, não só nos dois países, mas no mundo.


PR: No mundo inteiro!

Fabiana, foi um gosto. Muito obrigada por esta breve conversa.

Contamos com a presença de todos.

Muito obrigada, Fabiana


FC: Obrigada você, Paula! Um abraço para os portugueses e para todos os brasileiros, esperamos por vocês.


PR: Bem-haja.

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