para sair da da emoção, a pessoa precisa de entrar na emoção! Eunice Silva, explica o processo.

(...) Precisa aceder um pouco à dor ou à tristeza ou à revolta, para que possa falar sobre ela e realizá-la. Poder exprimi-la nas diferentes vertentes da sua experiência para depois, efetivamente, conseguir deixar isso ir para trás e abrir-se à experiência do que se segue. Do momento que se segue. (...)


Paula Ribeiro (PR):

Bem-vindos ao Trend Talks, um espaço onde se fala de tendências e o tema de hoje é Psico-Oncologia. O meu nome é Paula Ribeiro e connosco está Eunice Silva, coordenadora do serviço de Psicologia do IPO do Porto.

Bem-vinda, Eunice!


Eunice Silva (ES): Obrigada!


PR: Para além da coordenação do serviço de Psicologia do IPO do Porto, a Eunice também assume outras funções em outras instituições. Fale-nos um pouco do seu percurso profissional.


ES: Antes de ser psicóloga eu já tive outras profissões.

Fui programadora informática, fui enfermeira 2 anos e nos últimos 15 anos, mais ou menos, tenho estado a trabalhar como psicóloga no IPO e agora também na coordenação do serviço de psicologia.


Estou como tesoureira da Academia Portuguesa de Psico-Oncologia, que é uma sociedade científica que procura defender os interesses, portanto, reunir os profissionais desta área e fazer ações como aquela que estamos a fazer agora de divulgação da ciência nesta área, como o congresso que estamos agora a organizar.


Colaboro com o ICBAS na coordenação de uma unidade curricular em Psico-Oncologia e colaboro com o ISMAI, com umas aulas sobre Psico-Oncologia.


PR: A Eunice passou por várias experiências tais como a informática e a enfermagem, como é que surge esta paixão pela psicologia?

ES: É interessante essa pergunta! Eu acho que pela maneira como eu vejo as outras pessoas, os seres humanos, portanto, é maneira como tenho encarado a minha própria vida.


São caminhos de desenvolvimento pessoal em que procuramos ir fazendo aquilo que vai fazendo sentido para nós e nós não somos estáveis ao longo do tempo.

Isso corresponde ao percurso dos meus interesses, das minhas necessidades e vocação.


Agora que estou aqui, vou compreendendo que o meu caminho passou por tentar aproximar-me mais da compreensão e da ajuda nesta dimensão humana.


PR: Até porque a sua área é mais focada nas emoções, não é?


ES: Sim. Eu sou psicoterapeuta certificada em terapia focada nas emoções. Fiz a minha formação na Escócia com o Prof. Robert Elliott, que continua a ser o meu supervisor.


E juntamente com ele e a minha colega Susana Almeida, temos estado a estudar a aplicação desta abordagem psicoterapêutica aos doentes oncológicos.

E é sem dúvida a minha paixão. O papel das emoções na saúde, na doença, no nosso bem-estar, nas nossas relações pessoais, interpessoais.


PR: A doença oncologia, ela agrega um estado de enorme fragilidade emocional. Quer aos doentes, quer aos seus familiares. De que forma é que a psicologia pode ser um contributo decisivo na superação da doença? Como é que isso tudo acontece?


ES: Começando pela vulnerabilidade, sim é possível e acontece com alguma frequência.

Qualquer ponto deste caminho da vivência com a doença oncológica da pessoa encontrar-se elementos de grande vulnerabilidade, se bem que as pessoas são diferentes, tem experiências diferentes, tem doenças também diferentes porque a doença oncológica não é uma doença, ela reúne um conjunto de mais de 100 quadros clínicos, quase que, como se fossem doenças diferentes, embora tenham a mesma questão de base que é a proliferação de células malignas, mas não é universal.


Há pessoas que vão encontrando recursos e embora vulneráveis, vão conseguindo lidar com a doença. Outras poderão ter mais dificuldades e, sem dúvida, podem beneficiar do apoio psicológico.


A Psico-Oncologia, esta disciplina que abarca profissionais de diferentes disciplinas, psiquiatria, o serviço social, outros profissionais, como a enfermagem que vão tentando compreender esta dimensão psicossocial fundamental do cancro.


Portanto, no fundo perceber como é que as pessoas se adaptam aos acontecimentos adversos da vida, inesperados. Tem sido uma área que se tem desenvolvido ao longo dos anos e esse conhecimento aliado com o conhecimento de como é que as pessoas funcionam, das diferentes teorias psicológicas pode nos ajudar a compreender o que é que pode ser o sofrimento próprio, normal e tolerável que as pessoas têm que tolerar.


Porque há sofrimento, claro que uma pessoa tem que lidar com a doença que, seguramente, não estaria à espera e que pode trazer dificuldades.


A questão de poder distinguir também e compreender como é que esse sofrimento ou essa vulnerabilidade, quando existe, quando é que ela está pra lá dos recursos da pessoa, quando é que ela está numa dinâmica de funcionamento que se torne também, em si, numa doença, qualquer coisa que pode precisar de cuidados mais diferenciados.


Portanto, há todos esses espectros de possibilidades e a psicologia entra quando, ao conhecer a pessoa perceber e avaliar em que ponto, de facto, a pessoa está e pode trabalhar com a pessoa num nível quase que preventivo ou também, já depois de identificar uma perturbação mais instalada.


O mais comum são as perturbações de adaptação, são estágios em que as pessoas têm níveis de ansiedade, tristeza, depressão mais intensos e mais duradouros e que estão a ter dificuldades em resolver por elas.


Mas ao nível da prevenção e, já agora também ligando à questão das emoções que eu estava a dizer que tem sido este o meu interesse, qualquer área da psicologia vai funcionar da mesma maneira.


O nível da prevenção vem, ao proporcionar no encontro terapêutico entre a pessoa e o psicólogo, um espaço protegido, um espaço seguro, um espaço que facilita, em que o comportamento do psicólogo é intencional no sentido de facilitar no outro, na pessoa que está doente ou num familiar.


Facilitar o processo da pessoa a aceder à sua própria experiência emocional e cognitiva, poder simbolizá-la e poder dá-lhe nomes, imagens, traduzir o que está a sentir de uma forma, numa espécie de linguagem e com isso, poder processá-la, poder dar-lhe sentido, poder exprimir as emoções primárias adaptativas, exprimir a tristeza sem interrupções, sem auto-interrupções, interrupções dos outros.


Porque, fazendo aqui um parênteses, é normal muitas vezes, por exemplo, os familiares na sua boa intenção de ajudar o outro que está doente diz: “Não chores, vai ficar tudo bem” e às vezes a pessoa precisa de, antes de sair da emoção, precisa entrar na emoção.


Precisa aceder um pouco à dor ou à tristeza ou à revolta, para que possa falar sobre ela e realizá-la. Poder exprimi-la nas diferentes vertentes da sua experiência para depois, efetivamente, conseguir deixar isso ir para trás e abrir-se à experiência do que se segue. Do momento que se segue.


Mas, o que acontece muitas vezes com a doença oncológica é que a pessoa acaba por experimentar níveis de natureza e intensidade emocional muito acima do que é normal que, já agora, não têm que ser só negativos! Porque a pessoa pode também, muitas vezes, estar emocionada com manifestações de afeto, de apreço dos seus e isso também pode emocionar.


Na consulta, muitas vezes, a pessoa pode encontrar no psicólogo um outro contentor e facilitador que lhe permita viver a sua verdade no momento presente, processar as emoções à medida que elas vão acontecendo e mais facilmente, melhorar a sua relação emocional e sentir-se melhor.


No caso da doença, o psicólogo tem competências para fazer diagnóstico e intervenções terapêuticas, que muitas vezes podem ser suficientes para tratar quadros ansiosos e depressivos e, eventualmente, se estiverem mais complicados também podemos trabalhar numa equipa com os nossos colegas psiquiatras. É sempre um outro recurso e uma rede de segurança quando as coisas possam ficar mais difíceis.


PR: A Eunice faz parte da Comissão Organizadora e Científica deste congresso que é o 1º Congresso Luso-Brasileiro de Psico-Oncologia, mas para além disso a Eunice também vai moderar, juntamente com a Luiza Polessa do Brasil, uma mesa sobre Oncogenética. Quais são as expectativas desta sessão?


ES: Nós estamos entusiasmados com esta mesa e felizes por poder começar a apresentar um trabalho que tem vindo a ser desenvolvido aqui no IPO, numa equipa em conjunto com os colegas da faculdade de Psicologia. Um trabalho de investigação que tem sido feito no sentido de perceber melhor, caracterizar e fazer propostas que tenham uma aplicação na prática e na organização dos serviços.


No fundo é conhecer melhor o impacto do conhecimento que as famílias podem ter, de ter algum familiar ou dos próprios terem, mutações genéticas que predispõem para cancro.


Psico-Oncologia é mesmo assim, a medicina oncológica e este conhecimento científico à volta das doenças oncológicas tem vindo sempre a aumentar, a crescer. Já há alguns anos que se percebeu, que se identificaram mutações e em certos tipos de cancro, percebeu-se que mutações genéticas poderiam aumentar o risco de uma pessoa ter doença.


Estas mutações podem ser transmitidas hereditariamente. Quando algum dos nossos doentes faz esse estudo e percebe que tem uma mutação a decorrer na família, os familiares poderiam fazer testes genéticos para perceber se também eles têm essa mutação.


Se tiverem baseado nesse conhecimento e nessa informação genética e, com isso, percebendo que tem um risco aumentado de ter doença oncológica ao longo da vida, são feitas propostas. Há propostas terapêuticas como por exemplo, cirurgias profiláticas para reduzir o risco de ter doença em determinados órgãos.


Isso é uma realidade nova que não havia há umas décadas que é, termos pessoas que são seguidas nos hospitais oncológicos. Não têm doença oncológica, mas têm, efetivamente um risco de ter doença oncológica e, por causa desse risco identificado vão fazer cirurgias, vão tirar órgãos para evitar o risco da doença.


E tem outra dimensão nesta experiência: Conviver com a ideia do risco, das probabilidades, o fazer ou não fazer teste, o que é que sente quando faz o teste, o que é que os familiares sentem quando têm uma pessoa doente ou quando têm filhos doentes.


Já muitas coisas têm sido estudadas neste capítulo, o que esta linha de investigação tem trazido agora com o estudo que a Faculdade de Psicologia e o IPO têm realizado nesse campo é perceber melhor o impacto emocional, o impacto na vida das pessoas, dos familiares dos doentes.


É uma visão sistémica. Olhar para a família como um todo e nas dinâmicas do casal, dos pais para os filhos. Até que ponto essas dinâmicas, essa vida familiar é afetada pelo conhecimento da existência de uma mutação genética que corre na família.


PR: Será uma com certeza excelente sessão. Eunice, como é que surgiu a iniciativa de organizar o 1º Congresso Luso-Brasileiro de Psico-Oncologia?


ES: A Academia Portuguesa de Psico-Oncologia, já por tradição, regularmente, organiza o seu congresso nacional e entendemos que seria uma grande mais-valia para os nossos colegas que trabalham na área fazermos esta troca de experiências das nossas realidades diferentes.


De há uns anos para cá temos recebido colegas brasileiros, psicólogos, que estão a fazer estágio e também vamos conhecendo a realidade do Brasil. E, numa linha muito humanista, entendemos que a diversidade é uma mais-valia muito importante.


PR: Quer deixar um convite à participação no evento?


ES: Sim! Temos estado a preparar este congresso com muito entusiasmo, muita atenção e a tentar que ele traga conteúdos teóricos e práticos que sejam pertinentes no sentido da inovação, dos novos paradigmas.


Divulgar o que tem sido feito de novo na nossa disciplina, portanto, penso que, será um ponto de encontro para nós podermos trocar experiência e acho que é importante mantermos estes pontos de encontro e contacto.


PR: Eunice, foi um gosto conversar consigo. Um grande bem-haja e até ao Congresso!


ES: Posso dizer só mais uma coisa? Queria agradecer à bloom que têm sido excecionais no acompanhamento da organização deste congresso. É isso, deixar o meu obrigada à vossa equipa!


PR: Obrigada nós, Eunice! Muito obrigada!

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