O que é ballint? Diana fontanete explica.

(...) Não é o quê, é quem. Estamos a falar de Michael Ballint, que nos anos 50 deu início, em Londres, a um conjunto de seminários com discussão de casos e foco na abordagem dos problemas psicológicos intrínsecos à prática médica e à relação médico-doente. É aqui o conceito chave. (...)

Paula Ribeiro (PR): Bem-vindos ao Trend Talks, um espaço onde se fala de tendências e o tema de hoje é Psico-Oncologia. O meu nome é Paula Ribeiro e connosco está Diana Fontanete, Psiquiatra e especialista em Ballint.

Bem-vinda, Diana!


Diana Fontanete (DF): Olá! Obrigada! Obrigada por me terem aqui.


PR: É um gosto Diana. Diana, a primeira pergunta, uma pergunta quase urgente, é saber o que é Ballint?


DF: Engraçado! Não é o quê, é quem.

Estamos a falar de Michael Ballint, que nos anos 50 deu início, em Londres, a um conjunto de seminários com discussão de casos e foco na abordagem dos problemas psicológicos intrínsecos à prática médica e à relação médico-doente. É aqui o conceito chave.


E iniciou estes seminários com médicos, na altura chamava-se clínica geral, agora é medicina geral e familiar, que estavam treinados no tradicional modelo biomédico. E, realmente, foram estes seminários que deram origem ao que depois, evoluiu para o que atualmente chamamos, os grupos Ballint.


PR: Como é que surgiu todo este seu interesse por esta área? Fale-me um pouco, aqui, do seu percurso.


DF: Eu sou médica psiquiatra e no meu internato, portanto, quando nós estamos a fazer a especialidade, a minha tutora era líder certificado e iam começar um grupo lá no hospital onde eu estava a fazer o internato.


Desde o início do meu trajeto na psiquiatria que entrei em contacto com os grupos Ballint e realmente percebi que eles eram fundamentais e traziam imensos benefícios, não só a uma jovem médica no início da carreira, mas também a uma jovem psiquiatra.


Eu iniciei aí a minha formação também, depois terminei a especialidade, trabalhei num hospital geral, no departamento de psiquiatria de um hospital geral, em que não era, infelizmente, possível realizar grupos Ballint.


E, mais recentemente, estou no IPO do Porto onde me vai ser possível voltar aos grupos Ballint. Do ponto de vista de percurso, este é o meu percurso, digamos.

Sou atualmente sócia da Associação Portuguesa de Grupos Ballint e estou a fazer a formação de líder acreditado que, de facto, precisa de anos!


PR: E os grupos Ballint, como é que funcionam? Qual é que é a dinâmica?


DF: Habitualmente os grupos realizam-se com 8 a 12 pessoas. Nós, aliás, estamos a pensar em definir 10 para este workshop de sensibilização. 10 pessoas por grupo.


Os participantes vão aprender a reconhecer as reações emocionais, as atitudes e padrões de comportamento e, ainda, lidar com o que nós chamamos “o doente difícil”.


Estes grupos ajudam também a reconhecer o significado de sinais ocultos, no fundo, da comunicação não-verbal e também os diferentes valores desses sinais para pessoas diferentes, porque estão ali, no fundo, 10 pessoas com perspetivas diferentes.


A mais-valia dos grupos e o feedback que nós temos é que, realmente, os participantes acabam por treinar e adquirir mais capacidades para controlar as emoções, ganhar mais confiança, autoestima e satisfação profissional.


PR: Ou seja, nós estamos aqui perante uma preocupação relevante naquilo que é a saúde mental dos próprios profissionais?


DF: Exatamente. O grupo Ballint não faz parte de uma terapia para os profissionais. Isso é outra situação completamente diferente e outro tipo de grupos.

Mas, acima de tudo é um espaço onde se vai aprofundar a relação médico-doente, aprender e treinar este contacto emocional interpessoal. No fundo são capacidades de relação que melhoram a qualidade da prática médica, de qualquer especialidade.


PR: Eu fiz esta pergunta porque acredito que a prática clínica nestas áreas tão sensíveis, não deixam de afetar qualquer profissional de saúde que esteja mais diretamente ligado com o doente. Nós somos seres humanos, estabelecemos laços e, por vezes, pode ser muito complicado ir para casa e deixar os assuntos e as emoções no local de trabalho. Estava a tentar perceber se este processo também está com o foco nesta boa saúde emocional, digamos assim, dos próprios profissionais.


DF: Correto. Isso sim.

Um grupo Ballint implica que um dos participantes apresente um caso de dificuldades de relação médico-doente. Esse é o foco do grupo Ballint. De facto, quem participa regularmente em grupos Ballint, fica com uma maior competência para gerir as suas emoções e a comunicação com o doente e com os seus pares. Se ajuda? Sim. É um efeito indireto, embora não seja o foco.


PR: Ou seja, é um treino da comunicação médico-doente que por sua vez, indiretamente, está a ajudar, e muito, o dia-adia destes profissionais, não é?


DF: Sim. Isso sim. Concordo!


PR: Diana, nós vamos ter este workshop no âmbito do Primeiro Congresso Luso Brasileiro de Psico-Oncologia, que terá lugar já nos próximos dias 16, 17 e 18 do mês de setembro. O tema do whorkshop é Ballint revisitado: nova realidade em psico-oncologia. Uma vez que tem aqui a palavra “revisitado”, o que é que temos de novo em termos de programa e em termos de conteúdo?


DF: O workshop foi proposto como uma sensibilização aos grupos Ballint. Embora diga “revisitado”, o revisitado tem a ver mais com a aplicação dos grupos Ballint à psico-oncologia.


Os grupos Ballint têm uma história. Desde 1993 que se realizam grupos Ballint em Portugal que na sua grande maioria são em contexto de medicina geral e familiar e/ou psiquiatria. Psiquiatria de hospital psiquiátrico.

A palavra revisitado vem da sua aplicação no contexto da psico-oncologia.


O workshop foi pensado como uma sensibilização porque muita gente não sabe quem foi Ballint e o que é que são os grupos Ballint. A ideia é iniciar o workshop com uma sessão muito breve de aspetos teóricos, seguida da divisão dos participantes em pequenos grupos, estes grupos práticos.


Ou seja, quem participar no workshop vai, de facto, fazer parte de um grupo Ballint, com líderes acreditados, portugueses e brasileiros. O workshop é efetivamente, ou, foi o nosso objetivo que fosse uma experiência prática.


PR: Por isso é que o modelo workshop também é o modelo ideal para este tema, não é?


DF: Correto. Eu faço parte da Academia Portuguesa de Psico-Oncologia já há vários anos, já andava com esta ideia e só me fez sentido em formato workshop. As pessoas terão muito mais interesse e muito mais benefício se tiverem a possibilidade de experienciar.


PR: Diana, qual é que considera ser a mais-valia da realização deste primeiro Congresso Luso-Brasileiro de Psico-Oncologia?


DF: Nós, a APPO temos feito os nossos congressos nacionais e anualmente participamos também no congresso internacional da IPOS, na International Psycho Oncology Society e tivemos sempre na organização a preocupação de partilha de experiências.


Nos congressos prévios em Portugal, por exemplo, tivemos sempre seminários, workshops com palestrantes internacionais e que, geralmente, até eram pessoas com que nós estabelecíamos contacto, precisamente, no congresso da IPOS.


A partilha de experiências nesta área da psico-oncologia, saberes, técnicas, às vezes apenas as angústias é fundamental.


O Brasil, de facto, tem uma história na psico-oncologia considerável. Por exemplo, nas reuniões internacionais, é um país que está muito representado, com quem eu também acabei por estabelecer contactos nesse contexto e pareceu-nos que, nesta época de pandemia, o formato online era quase inevitável.


E, porque não, aproveitar esta possibilidade de fazermos esta parceria com a Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia? O grande benefício é a partilha.


PR: Diana, quer deixar aqui um convite aos participantes?


DF: Claro que sim!

A psico-oncologia é uma área fascinante, não fosse eu psico-oncologista! Acho que é uma área fascinante e com muita importância na prática seja da psiquiatria, psicologia, oncologia médica, entre outras especialidades.


Têm aqui a oportunidade de participar num congresso online, seguro e que, espero eu, seja enriquecedor, que traga muito conhecimento, muito saber.


Especificamente o workshop do qual eu estou responsável, acho que para quem é novo nas psico-terapias ou até na prática clínica, ou um médico que esteja a precisar de cultivar, praticar e pensar sobre a relação médico-doente, acho que é a oportunidade ideal para um primeiro contacto com o Ballint.


PR: Diana, foi um gosto. Muito obrigada pela sua participação. Muito obrigada por esta conversa muito agradável e até breve! Encontramo-nos lá no congresso!


DF: Correto! Até Breve!


PR: Obrigada Diana! Bem-haja!


DF: Adeus. Bem-haja!

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