não existe corpo sem subjetividade! A visão de caio vianna

(…) E também falamos do impacto da cura, porque mesmo curados, esses pacientes, eles já foram uma vez pacientes oncológicos. E uma vez pacientes oncológicos, eles passam a ter uma cicatriz na existência deles. Ou seja, eu já passei por uma situação que ameaçou a minha vida. Então, a gente fala de Psico-Oncologia em todos os momentos desse paciente. (...)


Paula Ribeiro (PR): Bem-vindos ao Trend Talks, um espaço onde se fala sobre tendências. O tema de hoje é Psico-Oncologia. O meu nome é Paula Ribeiro e connosco está Caio Vianna. É psicólogo; Especialista em Psicologia hospitalar e saúde do idoso; Mestre em ciências pela faculdade de medicina da universidade de São Paulo.

Bem-vindo, Caio!


Caio Vianna (CV): Muito obrigado! Muito obrigado pelo convite.


PR: Caio, de onde é que vem todo este interesse por Psicologia?


CV: Na verdade eu acho que desde a época da escola, quando eu era ainda pequeno.

Na época da minha escola, a gente tinha alguns estágios que a gente chamava de pastoral e nós eramos conduzidos pelos nossos professores e eramos levados a instituições de longa permanência para idosos ou em orfanatos.


E lá, a gente tinha a possibilidade de conversar com as pessoas, fazer companhia para as pessoas e daí, eu achava que a Psicologia ia muito para este âmbito até entender depois, o que seria a Psicologia quando eu entrei no meu primeiro ano de faculdade.

E aí a gente vê que é muito além de conversar, não é?


PR: Caio, fale-nos do seu percurso profissional.


CV: O meu percurso mesmo veio depois da faculdade, na verdade.

Eu fiz algumas especializações dentro da Psicologia da saúde.


Depois que eu fiz a especialização em Psicologia da saúde, pelo hospital das clínicas da faculdade de medicina aqui de São Paulo, eu fiz uma especialização em saúde do idoso que era algo que me fez interessar muito. Eu sempre fui muito interessado na área de envelhecimento, de Gerontologia (Geriatria).


E depois eu acabei entrando em um hospital para uma equipe de cuidados paliativos, pela expertise que eu tinha em envelhecimento e lá eu me deparei com cuidados paliativos oncológicos.


E aí eu entrei de cabeça, vamos dizer assim, na Psico-Oncologia.

Ou seja, eu entrei verdadeiramente na área da Psico-Oncologia. E fiz toda a minha formação na área de Psico-Oncologia em transplante de medula óssea, em Hematologia e Oncogeriatria, na área de Oncologia com pacientes idosos.


Então são os meus dois grandes motes de trabalho hoje em dia.


PR: Caio, a Oncologia é um terreno extenso pela sua multidisciplinaridade na abordagem da doença. Onde é que a Psico-Oncologia se encaixa?


CV: Bom, na verdade é assim, eu acho que a Psico-Oncologia, ela não teria como não existir no contexto oncológico tendo em vista que a gente está falando de uma doença que é estigmatizada socialmente.


De uma doença que desde os primórdios da descoberta das doenças oncológicas, é uma doença muito atrelada ao sofrimento e à dor.


E a gente fala também de um tratamento. Por exemplo, a quimioterapia, a radioterapia, a cirurgia destes pacientes. A gente fala de questões que envolvem o corpo diretamente e não existe corpo sem subjetividade. Não existe corpo sem o sujeito, não é?


Então, a Psico-Oncologia está muito presente na prática, na Oncologia, porque a gente fala de emoções à flor da pele, emoções que estão sempre sendo testadas ou pelo impacto do diagnóstico ou pelo impacto do tratamento ou até mesmo, pelo impacto ocasionado pela situação de fim de vida em alguns casos.


E também falamos do impacto da cura, porque mesmo curados, esses pacientes, eles já foram uma vez pacientes oncológicos. E uma vez pacientes oncológicos, eles passam a ter uma cicatriz na existência deles. Ou seja, eu já passei por uma situação que ameaçou a minha vida.


Então, a gente fala de Psico-Oncologia em todos os momentos desse paciente. Do seu início, no impacto do diagnóstico, até ao seu desfecho que a gente não sabe exatamente qual é.


Então, a gente tem que estar presente. A Psico-Oncologia, existe porque a Oncologia existe, a doença Oncologia existe e ela não acontece com coisas. Ela acontece com pessoas.


Então, é aí que a gente fala que a existência da Psico-Oncologia, é muito mais do que necessária.


PR: No âmbito da mesa, cujo tema é “O psico-oncologista em Onco-Hematologia e transplante de medula óssea”, o Caio vai ter uma intervenção em que vai falar sobre os desafios do psico-oncologista nestes doentes. A minha pergunta é: Quais são os principais desafios nesta área tão especifica?


CV: Eu acho que são muitos desafios, não é Paula?

Os desafios eram muito grandes pré-pandemia e agora, os desafios são ainda maiores pós-pandemia. Porque a gente fala de um tratamento que mexe diretamente com a imunidade desses pacientes.


E eles já viviam em isolamento antes de um coronavírus, da Covid-19 existir.

E agora a gente fala que um dos grandes desafios pós incidência da Covid-19, é lidar com os pacientes que vivem e convivem com um medo de morrer mais intenso ainda.


Então, o grande desafio do psicólogo que trabalha com o transplante de medula óssea, é porque ele está diante da possibilidade de cura da doença. E para chegar nessa cura existe muito sofrimento, porque existe um tratamento muito invasivo nesse processo. E a gente lida também com a possibilidade de morte iminente.


Então, é um papel do psicólogo muito voltado à questão do trabalho com urgência e emergência psicológica.


Eu acho que o grande desafio agora com a Covid, é tratar desses pacientes, tanto no pré-transplante de medula, no intra como no pós-transplante, na vigência de um Covid -19 que ameaça a vida dele ou que dá a impressão de que vai ameaçar a vida dele, duas vezes mais do que ameaçava antes da vigência da pandemia.


Então, nós temos diversos desafios e aí a gente fala que o trabalho do psicólogo que trabalha com Oncologia, do psico-oncologista, é enorme, porque agora a gente está lidando com as impossibilidades destes pacientes.


A sensação de impotência destes pacientes diante de uma nova era pós-Covid que a gente está vendo. Pós existência do Covid, vamos dizer assim.


PR: Até porque, transplante de medula óssea é um trabalho muito específico, altamente especializado, não é?


CV: Sim, sim!


É trabalhar com pacientes que, normalmente ele já vem com uma outra bagagem.

São pacientes de recidivas, de doenças oncológicas, pacientes que estão revivendo o diagnóstico, ou seja, pacientes com linfoma, leucemia, mieloma múltiplo, muitas vezes.


Principalmente linfoma, leucemia recaídos que a gente diz aí, ou até mesmo alguns tumores mais raros, tumores germinativos de testículo por exemplo, que tem indicação para transplante.


Então, o psicólogo lida com um paciente que já teve uma caminhada grande pela Oncologia, na maioria das vezes.


PR: E que pode até apresentar um cansaço já psicológico. Alguma fadiga psicológica, não é?


CV: Com certeza! Com certeza. E uma família também muito machucada por um período de adoecimento e que agora está tendo que reviver isso.


Então, a gente fala de um conjunto de fatores muito delicados de cuidar. O psicólogo, ele tem que estar bem atento porque depois da formação dele de Psico-Oncologia, ele pode se deparar com isso.


Tanto que você tinha até me perguntado da minha trajetória, eu lancei um livro no ano passado sobre o trabalho do psico-oncologista em transplante de medula óssea. A gente não tem quase nada na literatura, a gente tem artigos mais soltos, que são muito importantes e interessantes, mas a gente não tinha nenhuma literatura específica e agora a gente conseguiu ter um, com grandes autores.


PR: Onde é podemos encontrar esse livro?


CV: A gente consegue achar em várias plataformas digitais. É mais fácil achar pela Amazon, por exemplo. E lá, agora, a gente tem esta possibilidade e já estamos em um processo de lançamento do e-book. Mas, por enquanto, nós temos o livro físico e tem sido muito legal a gente ver os psico-oncologistas bem interessados, também na área da Oncologia e do transplante de medula óssea.


PR: Caio, este é o primeiro congresso luso brasileiro de Psico-Oncologia como dissemos à pouco. É a primeira vez que Portugal e Brasil se juntam nesta jornada de Psico-Oncologia. Qual é que considera ser a grande mais-valia deste encontro?


CV: Eu acredito que esse encontro, ele vai ser extremamente importante, no meu ponto de vista, que eu acho que é extremamente importante, a gente pode discutir questões ligadas à pandemia.


Brasil e Portugal tiveram a realidade da pandemia muito diferente que afetaram os pacientes oncológicos de maneira diferente.

E eu acho que a questão cultural, ela conta muito para a gente observar as nossas práticas. Como é que a gente lida no dia-a-dia.

Eu acho que a gente vai poder complementar muito a prática dos psicólogos e psiquiatras portugueses, assim como os psicólogos e psiquiatras portugueses poderão complementar a prática que a gente tem aqui no Brasil.


Então, vai ser um congresso que, eu tenho certeza, vai ser de suma importância para a Psico-Oncologia.


PR: Quer deixar aqui um convite aos participantes?


CV: Sim, sim! Quero deixar sim, um convite.

Espero que todos participem, vai ser um congresso que foi preparado com muito carinho, tanto pelo pessoal de Portugal como o pessoal aqui do Brasil.


A gente tem a honra de convidar pessoas que são muito importantes na área, que tem trabalhado diretamente, até mesmo neste contexto novo de pandemia que a gente tem vivido, e de pessoas também que já fizeram Psico-Oncologia tanto em Portugal com no Brasil e que consolidaram essa prática.


Então, por favor, gostaria que todos viessem para o congresso na modalidade online, obviamente, mas que vai ser de grande valia. Vai ser muito importante para todos participarem.


PR: Caio, muitíssimo obrigado! Foi um gosto falar consigo.


CV: Fico muito feliz! Muito Obrigado!


PR: Obrigado. Um bem-haja!

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