Investigação em psicologia pela voz de uma investigadora Portuguesa - Ana Torres

(...) Nós neste momento, em qualquer aérea que se preze, devemos exercer uma prática baseada na evidencia, portanto, temos que nos fundamentar naquilo que é eficiente, naquilo que sabemos que funciona, que causa benefício às pessoas, (...)


Paula Ribeiro (PR): Bem-vindos ao Trend Talks, um espaço onde se fala sobre tendências. O tema de hoje é Psico-Oncologia. O meu nome é Paula Ribeiro e connosco está Ana Torres, investigadora integrada no centro de investigação em tecnologias de saúde.

Bem-vinda, Ana Torres!

Ana Torres (AT): Obrigada Paula.


PR: Ana, ser investigadora em Portugal é um enorme desafio. Quer nos falar um pouco mais sobre o seu percurso profissional, sobre a sua profissão?


AT: Com certeza, Paula.

Eu sou Psicóloga, portanto, há alguns anos que dedico a minha atenção também área de Psico-Oncologia.


Apesar de me ter licenciado em 2003, depois foi através de uma bolsa de iniciação em investigação científica, ainda em outra área, em 2005, que comecei o percurso como investigadora.


Entretanto realizei, também para continuidade dessa mesma atividade, o mestrado e ainda nessa altura não dedicada à Psico-Oncologia. E só mais tarde através de uma colaboração da universalidade de Aveiro com a Liga Portuguesa Contra o Cancro em 2007 é que iniciei alguns estudos na área de Psico-Oncologia.


Foi essa área que me dediquei também no doutoramento e depois da sua conclusão, ainda dou continuidade a estudos nesta área. Portanto, em 2014 terminei o doutoramento, que foi especificamente com sobreviventes de cancro da mama e que desenvolvi e testei programas de intervenção do grupo para esta população que está realmente em forte crescimento.


Neste momento, várias temáticas já foram da minha atenção nesta área. Neste momento o foco é especialmente na questão das queixas cognitivas, apresentadas pelos sobreviventes que tiveram cancro e que neste momento, são entendidos como doentes crónicos que vão sempre necessitar de alguma atenção clínica e monitorização.


E as queixas cognitivas, de facto, são um dos pontos difíceis de lidar para esta população e daí ser necessário conhecer melhor o que caracterizam estas limitações e que soluções, que estratégias é que podem ser eficientes.


É este, realmente, o foco do meu trabalho atualmente. Com trabalho em equipa, naturalmente, nesta área.

PR: Então podemos dizer que a Psicologia é uma área onde o contributo da investigação científica, decorrente também de toda a prática clínica tem um papel fundamental. Como é que isto tudo acontece?

AT: Eu acredito que sim, que de facto, a psicologia pode ser um contributo muito importante para a intervenção com o doente oncológico e com os sobreviventes em particular, que deparam-se com alguns efeitos dos tratamentos, da doença em si, quer no momento, quer ao longo prazo e os efeitos cognitivos também.


Como até, de facto, vou ter oportunidade no congresso, de fazer a moderação da uma mesa onde um dos trabalhos que vai ser apresentado é de uma doutoranda que está a desenvolver um programa online, que está a ser adaptado dos Estados Unidos da América, que foi utilizado presencialmente neste contexto e apresentou resultados muito válidos, da professora Linda M. Ercoli que é da universidade da Califórnia, Los Angeles, e que neste momento está a ser adaptado para a população portuguesa num formato online, para pudermos chegar ainda a um número maior de pessoas . E a psicologia pode, de facto, ser um contributo.


Este programa é uma demonstração disso mesmo. Foi testado presencialmente e quer neste formato e espera-se que num formato mais online e mais disponível, a mais pessoas de uma forma acessível e distante até, nomeadamente, de várias localizações geográficas, que possam ser uma boa ajuda.


A psicologia neste contexto das limitações cognitivas é muito por treino, por estimulação cognitiva. Por exercício que promove a atenção, a concentração, a flexibilidade cognitiva.


E neste contexto pode ser realmente muito útil. Para além da psico-educação, que foi uma área que centrei também no doutoramento, portanto, as pessoas perceberem que consequências é que podem ter, que atribuições, que estratégias também é que podem utilizar para lidar melhor com a situação que viveram e que vivem, relacionada com a doença.

E sim, tem-se de facto encontrado benefícios e este é o objetivo.


É dar continuidade a estes benefícios cada vez mais alargados e que cheguem a um número crescente de pessoas.


PR: A Ana Torres para além de fazer parte da comissão organizadora do primeiro Congresso Luso-Brasileiro de Psico-Oncologia, também integra a comissão científica deste evento e no programa, nós vamos ter a apresentação de cinco trabalhos científicos selecionados para apresentação de comunicação oral.

Qual é que considera ser a importância destas atividades, desta partilha de investigação, muita desta investigação decorrente da prática clínica ou da prática clínica diária. Qual considera ser a importância destas atividades, destas partilhas num congresso como este?


AT: É de todo importante!

Nós neste momento, em qualquer aérea que se preze, devemos exercer uma prática baseada na evidencia, portanto, temos que nos fundamentar naquilo que é eficiente, naquilo que sabemos que funciona, que causa benefício às pessoas, evitando qualquer tipo de fundamentação, mais, digamos, intuitiva que acontecia até algum tempo em algumas áreas e que não faz sentido atualmente acontecer, como realmente tantas oportunidades e acessos ao conhecimento.


O Congresso Nacional de Psico-Oncologia, e neste momento mais do que nacional até já com caracter internacional, é uma oportunidade para pessoas que estão a trabalhar na área, puderem encontrar exatamente o que é que se conhece, o que é que se faz, que evidência , que eficiência é que se conhece daquilo que se faz atualmente e daquilo que se conhece atualmente.


É uma ótima oportunidade termos a participação do Brasil, que é um país com conhecimento muito aprofundado, muito dedicado a área de Psico-Oncologia. E isto abre-nos novos horizontes.

Espero que seja de todo frutífero para todas as pessoas envolvidas.


PR: Até porque, o Brasil sendo um país que à partida nós temos a mesma língua de base, portanto, português, embora haja muitas diferenças em termos da própria língua quer num país, quer noutro. Embora tenhamos essa mesma base a partir da língua, são países com realidades muito distintas.


AT: Exatamente! E, portanto, esta troca, esta partilha torna-se bastante mais rica. Exatamente por essa diversidade. E por essas diferenças.


E a tradição do conhecimento, da investigação é muito distinta também. No Brasil existe uma tradição até muito mais voltada para aspetos qualitativos e em Portugal nós dedicamos muito mais a aspetos quantitativos, também na área de investigação.


Acredito mesmo que este cruzamento de saberes, de olhares vai ser muito enriquecedor para todos os profissionais envolvidos, de um e de outro país. Espera-se também naturalmente contributos consequentes para as pessoas e para as famílias.


PR: Ia lhe pedir agora de seguida para deixar um convite a participação neste evento.


AT: Convido todos os profissionais que trabalham nesta área, seja do ponto de vista da prática clínica quer também da prática de investigação.


Este congresso é um congresso na área da Psico-Oncologia que é, por tradição, completamente imperdível. Não existem muitos congressos na área e, portanto, é imperdível.


Neste formato, um formato tão acessível, online, e ainda por cima com caracter internacional, com experiências tão diversas.

Também com as partilhas do Brasil é realmente incontornável. Portanto, estejam presentes, participem e colaborem nesta partilha tornando ainda mais frutífera para todos.


PR: Muito obrigada Ana Torres. Foi um gosto falar consigo. E até ao congresso. Encontramo-nos no congresso, portanto, todos podem saber mais sobre o congresso no site do evento, acompanhando também as redes sociais, nomeadamente o Linkedin , o Instagram e também o Facebook e contamos com a presença de todos.

Muito Obrigada, Ana.


AT: De nada! Muito obrigada, Paula.

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